

Somos portugueses, não franceses. Rimos alto, falamos alto, fumamos em lugares fechados, comemos em lugares grandes, somos “quentes”. Claro, para o bem e para o mal, como tudo na vida. Na França tudo é “baixinho” (de “ao pé do ouvido”), tudo é gentil (ainda que aquela quantidade de “mercis”, “bom jours” e “bom appetits”, no tom de voz que eles usam, quase pareça ironia...), tudo é “civilizado” (em um museu, ninguém passa na tua frente quando estás “a olhar” um quadro, p. ex.). Mas... tanta civilização também pesa. Senti isso no avião, quando estávamos bem alto, só com o céu azul acima. Senti que estava pesado e que ver aquele céu todo, tão firme, tão iluminado, tinha me tranqüilizado. Um pouco, certamente, devido ao fato de falar mal a língua dos franceses. Falar mal uma língua im possibilita de se comunicar, óbvio, mas além disso, deixa tudo muito inseguro. Comer, por exemplo, fica inseguro. Por exemplo: fui a um restaurante que tinha perto do hotel, no GRANDE 13eme, place Italie. Restaurante que eu sempre via cheio e com a maior cara de lugar legal. Um bar do Beto como era antigamente (!!!), ali na esquina, em frente a onde ele é hoje. Pois um dia decidi entrar. Tava meio cheio, o cara do balcão me perguntou se estava sozinho e não teve dúvida: me colocou sentado em uma mesa para quatro pessoas, onde já estavam sentadas outras duas pessoas. Não entendi direito, mas, meio constrangido, sentei. Os que estavam sentedos me olharam e continuaram comendo e conversando. Eu, cheio de casacos, mochila, câmera fotográfica, livro, fui ficando mais constrangido... Levantei, pedi licença, (acho que pedi licença, ao menos balbuciei alguma coisa parecida) e fui me embora tri-envergonhado. Acabei num restaurante indiano meia-boca total! Fiquei puto. Primeiro com o cara do bar (“porra, que coisa mais indiscreta!!! Eu queria uma mesa pra ficar sozinho!!! Isso lá é coisa que se faça?”) Depois, comigo (“Mané, talvez seja assim que eles funcionem, só isso... Talvez os caras já tivessem até pedido a conta e, com o bar cheio, ele me fez sentar em uma mesa que logo ia sobrar.”). Enfim, como disse uma vez uma repórter que eu acompanhava, fotografando, em uma matéria sobre “roteiros para uma noite quente em Porto Alegre”, em Roma como os romanos (se alguém se interessar conto “à francesa” detalhes desta história que é bem boa!) Enfim, decidi ir de novo lá (Chez Gladines é o nome do lugar) e ver como era. Grande idéia. E funciona assim mesmo: te colocam sentado onde tiver lugar. É um bar com comidas bascas e francesas. Mesas por tudo onde é possível ter uma mesa, lugar pequeno, por isso aproveitam do jeito que dá. Dessa vez, me fizeram sentar em uma mesa grande, com outras pessoas que, do mesmo jeito que antes, comiam, conversavam, namoravam. Um casal, intimíssimo, aliás, comemorava alguma coisa da relação deles. Ela deu um pote de pedrinhas pra ele. Ele olhou amorosamente para ela. A comida era servida em bacias, “assiete”, eles dizem (depois me dei conta que isso é relativamente comum em Paris porque vi em outros lugares. Aliás, quem assistiu ao Theatre du Soleil em Porto Alegre e comeu no restaurante que eles montaram, comeu em uma espécie de “assiete”.
No fim, Chez Gladines se tornou meu restaurante. Voltei lá várias vezes, fiz minha última refeição em Paris, um almoço, lá. Neste almoço sentou comigo na mesa um velhinho simpaticíssimo que me contou que esta era uma velha maneira de se comer em Paris. Que era um jeito “operário”, que aquele era um bairro ligado à história da comuna de Paris e que ali tentavam ser zelosos dessa tradição. Que, depois, desde os anos 70, segundo ele, tudo foi mudando em direção a se ser mais individual, mais formal, mais civilizado...
Bem, agora cá estamos em Portugal. Aqui, esta “civilização” já não parece imperar do mesmo jeito. Viva!!! O sol apareceu (acho que ver o céu no avião também me deu essa segurança: em Paris o tempo estava sempre para chover. Nos dias (2!) em que mais fez sol, em que fazia um céu limpíssimo de manhã, também acabou cem chuva mais tarde). Mas, que pretensão. Acabei de chegar e já estou tecendo comentários sobre como é o país (o país!!!) Vamos lá olhar e ver como tudo é, ó pá!!!
P.S.: contrariamente às previsões, provei vários croissants franceses e afirmo: medias lunas argentians são melhores!